Ao contrário do que muitas vezes se
pensa, historicamente o imposto sobre herança/doação foi ativamente
defendido por filósofos, economistas e políticos de orientação liberal,
como Jeremy Bentham, John Stuart Mill e Thomas Jefferson. No mesmo
sentido, sua implementação se deu de forma espantosamente mais acentuada
após as duas grandes guerras mundiais e em países em que predominava o
liberalismo, como EUA, Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia e Austrália.
Por
exemplo, no ano de 1965, a alíquota superior do imposto sobre
heranças em linha direta era de 77% nos EUA e 80% no Reino Unido e
apenas de 2% no Brasil. No caso do Reino Unido, esse percentual
chegou a aumentar ainda mais no início dos anos 70, quando atingiu
85%. E em 1972, o candidato democrata George McGovern, chegou a
propor uma taxa superior de 100% para as heranças mais elevadas.
Todavia,
a partir do final dos anos 80, o imposto que até então era
reconhecido como necessário para garantir igualdade de oportunidades
e o aspecto meritório do capitalismo passou a ser questionado na
maioria dos países ricos. Os principais argumentos levantados iam no
sentido recorrente de dizer que os impostos desencorajam os agentes
econômicos a trabalharem, pouparem e empreenderem.
Entretanto,
as evidências atuais sugerem não haver relação comprovada entre
produtividade e tamanho das alíquotas aplicadas (pelo menos nos
níveis existentes até hoje), sendo ainda mais incerta no que tange
à tributação sobre heranças. A própria história do capitalismo
parece corroborar esse argumento, pois entre 1950 e 1973, quando
ocorreu o período mais próspero do capitalismo, também estiveram
vigentes as maiores tributações sobre renda e patrimônio.
Ademais,
também existem boas evidências de que grandes heranças legadas a
herdeiros aumentam a probabilidade de que estes deixem de trabalhar
ou trabalhem menos. Essa, inclusive, tem sido a preocupação de
alguns multimilionários, como Warrent Buffet e Bill Gates, os quais
alegam que irão deixar a seus herdeiros apenas uma pequena fração
de suas fortunas, deixando o resto a fundos de caridade. Aliás,
conforme Piketty (2014), a própria disposição em exercer esse
“altruísmo” parece guardar relação com a tributação. O autor
observa que esses fundos são bem mais relevantes em países com histórico de imposto sobre herança elevado, como nos EUA.
Por
fim, o belo trabalho de Mazzucato (2014) demonstra ser o estado quem
reúne as melhores condições para trazer dinamismo e inovação à
economia, o que, por sua vez, demanda contrapartidas dos agentes
privados, até para se garantir a sustentabilidade futura da
cooperação estado/iniciativa privada. Ninguém menos do que Bill
Gates também defende essa premissa:
A
razão pela qual o imposto sobre herança faz tanto sentido é que
existe uma relação direta entre o patrimônio líquido que as
pessoas têm quando falecem com onde moram. O governo que protege
suas atividades comerciais, as tradições que lhes permitem confiar
em certas coisas acontecendo, é o que cria capital e permite que o
patrimônio líquido aumente. O ingrediente mais significativo de
todos é o investimento do governo federal em pesquisa e
desenvolvimento tecnológico. Cerca de 30% do crescimento do nosso
produto nacional bruto a cada ano é uma função da nova tecnologia;
isso é em grande parte onde a riqueza é criada. O aumento no
patrimônio pessoal é em grande parte derivado de ideias para novas
tecnologias do governo federal, as quais criam riqueza. […]. O fato
é que o imposto sobre herança é coletado em conexão com a
passagem da riqueza de uma geração para outra. [...]. É um imposto
inteiramente apropriado, que eu descreveria como uma fatura devida
para aqueles que tiveram a oportunidade de desfrutar de tal
generosidade (GATES,
2006).
Vale
registrar, que mesmo com os reveses da era neoliberal, entre os
países que mantiveram este tipo de imposto, sua arrecadação
continua muito maior do que no Brasil e com a aplicação de
alíquotas em patamares sempre maiores do que 30%, enquanto no
Brasil, o limite máximo é de 8%. A arrecadação também costuma
ser de duas a três vezes mais elevada, o que prova que o Brasil
ainda tem muito que aprender com os países mais ricos, talvez,
ouvindo menos o que falam e fazendo mais o que fazem/fizeram.
Referências
Bibliográficas:
GATES,
Bill. Trechos retirados de uma conferência para o Center
on Budget and Policy Priorities (CBPP)
em 1º junho de 2006. Disponível online em:
<http://www.cbpp.org/6-1-06tax-transcript.pdf>.
MAZZUCATO,
Mariana. O
Estado empreendedor:
desmascarando o mito do setor público vs setor privado. São Paulo:
Portfolio-Penguin, 2014.
PIKETTY,
Thomas. O
capital no século XXI.
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.